
OS DONS NÃO CESSARAM
OS DONS NÃO CESSARAM
Uma avaliação exegético-teológica dos argumentos cessacionistas em 1Coríntios 13.8-13 e Atos 2.16-21
RESUMO
O artigo examina os principais argumentos empregados pela tradição cessacionista para sustentar o encerramento dos dons espirituais descritos no Novo Testamento. O objetivo é verificar se a exegese que identifica “o que é perfeito” (1Co 13.10) com o fechamento do cânon e a que restringe a manifestação dos carismas à era apostólica encontram apoio no texto bíblico e na literatura produzida pelos próprios autores não pentecostais. A pesquisa é bibliográfica, de natureza qualitativa, com abordagem exegético-teológica, e constituiu seu corpus a partir de três comentários de referência a 1Coríntios, pertencentes a tradições confessionais distintas, e de três obras representativas do debate contemporâneo sobre a continuidade dos dons. Os resultados indicam que a identificação do “perfeito” com o cânon concluído não se sustenta no encadeamento do capítulo nem é endossada pelos intérpretes mais influentes da tradição reformada, que situam a cessação no horizonte escatológico; indicam também que os carismas nunca foram exclusividade do colégio apostólico, conforme Atos 1.15 e 2.4, e que a fórmula “nos últimos dias”, de Atos 2.17, abrange todo o tempo que antecede a consumação do Reino. Conclui-se que os argumentos analisados derivam de pressupostos teológicos anteriores ao texto e não da exegese das passagens invocadas, permanecendo a Igreja, em sua natureza carismática, revestida do poder do Espírito até a vinda de Cristo.
Palavras-chave: Cessacionismo; Dons espirituais; 1Coríntios 13; Pentecostalismo; Escatologia.
1 INTRODUÇÃO
A controvérsia a respeito da permanência dos dons espirituais acompanha a história do cristianismo ocidental e ganhou contornos novos no século XX, com o surgimento e a expansão do movimento pentecostal e, mais tarde, da renovação carismática. De um lado está a convicção de que as manifestações descritas em 1Coríntios 12—14 e narradas em Atos pertencem à vida ordinária da Igreja em todos os tempos. De outro está a tese cessacionista, segundo a qual tais manifestações cumpriram uma função delimitada na fundação da Igreja e se encerraram junto com ela.
Em resumo, o cessacionismo argumenta que os dons espirituais, conforme descritos no Novo Testamento, não são mais necessários e teriam cessado. Essa visão se apoia na hermenêutica de partes específicas das Escrituras e na observação histórica da Igreja, concluindo que os dons foram restritos a um período inicial de confirmação da mensagem cristã e que, cumprido esse propósito, não seriam mais necessários.
O problema que orienta este artigo pode ser enunciado da seguinte forma: os argumentos correntes em favor da cessação dos dons resistem ao exame das passagens bíblicas que supostamente os sustentam? A tese aqui defendida é que não resistem. Sustenta-se que os dois argumentos mais difundidos — o do fechamento do cânon, extraído de 1Coríntios 13.10, e o da limitação dos carismas à era apostólica — repousam sobre pressupostos teológicos anteriores ao texto, e não sobre a exegese dele. Mais do que isso: sustenta-se que essa leitura não encontra eco nem mesmo na melhor literatura produzida pela tradição que a defende.
A relevância da discussão não é apenas acadêmica. No Brasil e na América Latina, a controvérsia tem efeitos pastorais concretos, sobretudo pela circulação de material apologético dirigido contra as igrejas pentecostais e pela pressão exercida sobre a juventude dessas comunidades. Uma avaliação serena dos argumentos, feita com as ferramentas da exegese e em diálogo com autores das duas tradições, presta serviço tanto ao debate teológico quanto à formação eclesial.
Quanto ao percurso metodológico, trata-se de pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa, com abordagem exegético-teológica. O corpus foi constituído por três comentários de referência a 1Coríntios, escolhidos justamente pela diversidade das tradições a que pertencem: o de William Barclay, ministro da Igreja da Escócia; o de João Calvino, reformador de Genebra, frequentemente invocado como autoridade pelos cessacionistas; e o de Gordon Fee, exegeta pentecostal. A esses foram acrescentadas três obras representativas do debate contemporâneo sobre a continuidade dos carismas, de autoria de Jack Deere, Douglas Oss e Robert Rothwell. O critério de inclusão foi a existência de tratamento direto das passagens analisadas; o critério de exclusão foi a impossibilidade de verificar a referência bibliográfica completa da obra, razão pela qual nenhuma fonte de localização incerta foi mantida no texto final.
As citações bíblicas seguem a tradução de João Ferreira de Almeida, edição Revista e Corrigida, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil. Quando o argumento depende do vocabulário original, indica-se o termo grego transliterado entre parênteses. As citações de obras sem paginação na edição consultada são localizadas pelo trecho comentado, conforme permitido pela NBR 10520:2023.
O artigo está organizado em três movimentos. A seção seguinte delimita o conceito de cessacionismo e descreve o modo como ele costuma ser mobilizado contra o pentecostalismo. A terceira seção examina o argumento do fechamento do cânon a partir de 1Coríntios 13.8-13, confrontando-o com os comentários de Barclay, Calvino e Fee. A quarta seção trata da suposta cessação gradual dos dons e do argumento da era apostólica, discutindo Atos 1.15, Atos 2.4 e a moldura escatológica de Atos 2.16-21. As considerações finais retomam o problema, reconhecem os limites do estudo e apontam uma agenda de investigação.
2 O CESSACIONISMO E SEU ALCANCE POLÊMICO
Os cessacionistas não se limitam a ensinar sua doutrina da cessação dos dons; muitas vezes fazem também apologética contra o pentecostalismo. Seus representantes mais radicais tratam o pentecostalismo clássico e os demais pentecostalismos como heréticos. Há até mesmo certo proselitismo por parte de algumas lideranças, bem como aliciamento, ou tentativa de aliciamento, em relação à juventude pentecostal, promovidos a partir da tradição evangélica cessacionista.
Convém registrar, contudo, que o cessacionismo não é um bloco homogêneo[1]. Entre a posição que nega toda operação extraordinária do Espírito após o primeiro século e a posição de quem apenas se mostra cauteloso diante das manifestações contemporâneas existe uma faixa ampla de matizes. Reconhecer essa variedade é exigência de honestidade intelectual e, ao mesmo tempo, condição para que a crítica atinja os argumentos de fato sustentados, e não caricaturas deles. Por essa razão, as páginas seguintes discutem formulações efetivamente publicadas por autores cessacionistas, e não versões populares e simplificadas de sua doutrina.
Neste artigo, analisaremos alguns desses argumentos, começando por aquele que, no ambiente brasileiro, mais circula em púlpitos, redes sociais e manuais de doutrina: o que identifica “o que é perfeito”, em 1Coríntios 13.10, com a conclusão do cânon das Escrituras.
3 OS DONS CESSARAM COM O FECHAMENTO DO CÂNON?
O ponto de partida é o próprio texto paulino:
O amor nunca falha; mas, havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. (1Co 13.8-10)
Um dos textos mais utilizados para tentar comprovar a suposta cessação dos dons é justamente 1Coríntios 13.10. Na compreensão desses exegetas antissobrenaturalistas, “o que é perfeito” (τὸ τέλειον, to teleion) refere-se à Bíblia; assim, com o fechamento do cânon, o Espírito Santo teria cessado a concessão dos dons.
3.1 O que Paulo está de fato argumentando
Paulo está comparando o amor com os dons do Espírito e afirmando que o amor é mais importante do que as manifestações dos dons espirituais, porque o amor de Deus aos homens, bem como o nosso amor pelos irmãos e pela sociedade, é a causa dos dons. O apóstolo já havia afirmado que, ainda que falássemos a língua dos anjos, tivéssemos toda a ciência e todo o conhecimento e realizássemos sacrifícios até o martírio, essas coisas, sem amor, nada seriam.
O amor de Deus é a origem e a motivação dos dons. Além disso, enquanto as profecias devem ser julgadas quanto à sua procedência divina e o conhecimento permanece parcial e limitado, o amor nunca falha. Ele é o caminho mais excelente e, enquanto os dons possuem validade temporal, o amor jamais acaba. De fato, o texto ensina que línguas e profecias cessarão. A questão decisiva é outra: quando? Interpretar “o que é perfeito” como a conclusão do texto bíblico é uma leitura profundamente problemática.
O sujeito da expressão “quando vier”, conforme o próprio texto indica, aponta para a consumação plena: o Cristo, o Reino de Deus. Quando o Reino for plenamente manifestado, não haverá necessidade de ciência, línguas, profecias ou cura divina. O apóstolo prossegue afirmando: “Porque agora vemos por espelho, em enigma; mas, então, veremos face a face; agora conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido” (1Co 13.12). Vemos e conhecemos a Deus como por meio de um espelho, mas o veremos face a face. O amor permanece porque, como disse João, “Deus é amor”. Quando chegar o tempo da plena manifestação do Reino, as profecias e as línguas não serão necessárias. Contudo, enquanto esse tempo não chega, elas permanecem, ainda que não sejam mais importantes do que amar a Deus e ao próximo.
Note-se que o próprio encadeamento dos versículos 11 e 12 não admite a leitura canônica. A passagem da infância à maturidade e a passagem do espelho para a visão “face a face” descrevem uma mudança de estado do sujeito que conhece, não a substituição de um meio de revelação por outro. Nenhum leitor, por mais familiarizado que esteja com as Escrituras, afirmaria que hoje conhece a Deus “como também é conhecido”. Como, então, interpretar “o que é perfeito” como a Bíblia nesse texto, senão por uma predisposição em negar o pentecostalismo?
3.2 A inconsistência interna da leitura canônica
Se tal interpretação fosse coerente, seria necessário afirmar também que a ciência cessou, pois o apóstolo declara: “havendo ciência, desaparecerá”. Observa-se, contudo, o desaparecimento da ciência, ainda que esta seja compreendida como conhecimento teológico parcial? Evidentemente, não.
Os próprios cessacionistas produzem ciência bíblica, livros e conhecimento teológico em quantidade considerável. Portanto, parte do versículo se aplicaria ao presente e parte não? Uma análise cuidadosa demonstra o quanto essa interpretação se mostra frágil e tendenciosa, pois exige que o mesmo verbo, aplicado a três objetos na mesma sentença, produza efeitos cronológicos distintos. Não fiquemos, porém, apenas nesta explicação introdutória; consideremos o que teólogos de reconhecida reputação, tanto pentecostais quanto não pentecostais, afirmam sobre a passagem.
3.3 O testemunho de intérpretes não pentecostais
William Barclay, ao comentar 1Coríntios 13.8-13, sustenta que Paulo ressalta ali dois aspectos centrais do amor cristão. O primeiro é a sua permanência absoluta: quando tiverem passado todas as coisas de que os homens se vangloriam, o amor prevalecerá, conforme a imagem do Cântico dos Cânticos, segundo a qual as muitas águas não podem apagar o amor, nem os rios afogá-lo (Ct 8.7). O segundo é a sua integridade absoluta: nesta vida vemos apenas reflexos de Deus e convivemos com muito daquilo que permanece mistério e enigma; ainda que em Cristo tenhamos a revelação perfeita, nossa mente só a apreende em parte, porque o finito jamais abrange o infinito. No fim, removido o véu, veremos face a face e conheceremos como somos conhecidos (Barclay, 1997).
O dado relevante para o nosso argumento é o seguinte: Barclay não era pentecostal nem carismático, mas ministro da Igreja da Escócia e exegeta criterioso, e não enxergou nessa passagem nenhuma alusão à cessação dos dons, muito menos vinculada ao fechamento do cânon. Sua leitura é integralmente escatológica.
Calvino, em seu comentário à Primeira Carta aos Coríntios, também não defende a ideia de que a Bíblia seja “o que é perfeito” e de que, por isso, os dons teriam cessado[2]. Ou seja, neste ponto alguns calvinistas parecem discordar de Calvino. Diz assim o reformador de Genebra:
Quando a meta houver sido alcançada, então os auxílios da corrida serão abolidos. Ele mantém, contudo, a forma de expressão que já havia empregado, ao contrapor a perfeição àquilo que é em parte. “A perfeição”, diz ele, “quando chegar, porá fim a tudo quanto socorre a imperfeição”. Mas quando virá essa perfeição? Ela começa, na verdade, na morte, pois então nos despimos, juntamente com o corpo, de muitas fraquezas; ela, porém, não se manifestará completamente até o dia do juízo, como ouviremos em seguida. Daí inferimos que toda esta discussão é ignorantemente aplicada ao tempo intermediário. (Calvino, 1546, comentário a 1Co 13.10, tradução nossa)
A última frase merece atenção, porque nela Calvino antecipa e recusa precisamente o uso que dele se faria séculos depois. Aplicar a discussão de 1Coríntios 13 ao “tempo intermediário”, isto é, ao período que vai da ascensão de Cristo ao juízo final, é, para o reformador, um equívoco de leitura. O cessacionismo do fechamento do cânon faz exatamente isso.
3.4 A leitura escatológica de Gordon Fee
Do lado pentecostal, Gordon Fee chega ao mesmo horizonte interpretativo por caminho exegético próprio. Comentando o encadeamento do capítulo, ele observa:
Agora, após a precedente descrição poética do amor, ele conclui o presente argumento com mais uma série de contrastes: o amor é o caminho acima de qualquer comparação, porque, em contraste com os dons, que funcionam apenas no âmbito de nossa presente existência escatológica, o amor caracteriza nossa existência tanto agora quanto para sempre. Paulo não está condenando os dons; está relativizando-os, colocando-os em perspectiva escatológica. Os dons propriamente ditos não pertencem ao futuro, mas apenas ao presente. Essas manifestações/dons passarão (v. 8a); eles são “em parte” (v. 9, “parciais”); são como a infância em comparação com a idade adulta (v. 11); são como ver um reflexo no espelho, em comparação com ver alguém face a face (v. 12). (Fee, 2019, p. 811)
Sobre a identificação daquilo que Paulo tem em vista ao dizer “quando vier o que é perfeito”, o mesmo autor explica:
Na vinda de Cristo, o propósito final da obra salvadora de Deus em Cristo terá sido alcançado; a essa altura, os dons agora necessários para a edificação da igreja na era presente desaparecerão, porque a “completude” terá chegado. Para citar a maravilhosa ilustração de Barth: “Porque o sol nasce, todas as luzes são apagadas”. A capacitação com os dons do Espírito é apropriada, por analogia, à vida atual da igreja, especialmente porque, na perspectiva de Paulo, eles são a operação ativa do Espírito na vida coletiva da igreja. Por outro lado, esses “dons” são igualmente inapropriados para a existência final da igreja, porque, conforme ele passará a raciocinar, então “conhecerei plenamente, da mesma maneira que sou plenamente conhecido” (v. 12). Daí o contraste implícito com o amor, que nunca findará. O amor não elimina os dons no presente; em vez disso, ele é absolutamente essencial à vida cristã, tanto agora quanto para sempre. Por outro lado, os dons/manifestações não são para sempre; eles ajudam a edificar o corpo na assembleia reunida do povo de Deus — mas só no presente, quando tal edificação é necessária. (Fee, 2019, p. 811-812)
Perceba-se que tanto o intérprete de tradição reformada quanto o pentecostal situam o momento da cessação dos dons numa perspectiva escatológica, que é a perspectiva clara do texto. Os dons cessam quando Cristo vier, quando o Reino vier, e não quando a Bíblia foi completada. Vale observar que essa convergência ocorre entre autores separados por quatro séculos, por confissões distintas e por métodos exegéticos diferentes, o que reduz consideravelmente a plausibilidade da leitura canônica.
3.5 Um anacronismo de fundo
Resta ainda uma dificuldade histórica que a leitura canônica não consegue resolver. A ideia de que a Bíblia substitui os dons e os milagres é insustentável, pois, para os primeiros cristãos, as Escrituras eram o Antigo Testamento, já que o Novo Testamento estava em formação e não resultou de um projeto previamente planejado. E, nessa época, tendo diante de si apenas o Antigo Testamento como Escritura, os cristãos não concluíram que já não precisavam dos dons do Espírito. Do mesmo modo, possuir a Lei de Moisés não levou os hebreus a extinguir as profecias nem a negar os milagres.
Atribuir aos coríntios a expectativa de um cânon futuro é, portanto, um anacronismo. Paulo não poderia estar consolando uma comunidade com a promessa de um conjunto de escritos cuja delimitação levaria séculos para se estabelecer, e que nenhum dos seus leitores conheceria.
4 A SUPOSTA CESSAÇÃO GRADUAL E O ARGUMENTO DA ERA APOSTÓLICA
O segundo grande argumento desloca o eixo da discussão do texto para a história. Segundo ele, os dons teriam desaparecido de forma gradual, acompanhando o fim da geração apostólica, por volta do ano 100 d.C. Antes de examiná-lo, convém registrar uma observação de Jack Deere a respeito da origem da doutrina:
Ninguém jamais simplesmente pegou a Bíblia, começou a lê-la e então chegou à conclusão de que Deus não estava mais operando sinais e maravilhas e de que os dons do Espírito Santo haviam passado. A doutrina do cessacionismo não se originou de um estudo cuidadoso das Escrituras. A doutrina do cessacionismo originou-se da experiência. (Deere, 1993, p. 99, tradução nossa)
A observação é dura, mas metodologicamente pertinente: ela desloca a pergunta do terreno da polêmica para o da fundamentação. Se a cessação é doutrina bíblica, deve ser demonstrada a partir de textos; se é inferência a partir da ausência de experiência, então precisa ser apresentada como tal.
4.1 Os carismas nunca foram exclusividade apostólica
Conectar a manifestação dos dons à era apostólica é um erro, e podemos demonstrá-lo por meio do próprio texto bíblico. Em primeiro lugar, Atos dos Apóstolos deixa claro que os operadores de milagres, os que curavam, os profetas e os que falavam em línguas nunca estiveram restritos à atuação dos apóstolos. Ainda que estes tenham tido um ministério com sinais abundantes de poder, em especial nos relatos de Pedro e de Paulo, diversos outros personagens que não pertenciam ao colégio apostólico manifestaram dons e sinais. Estêvão, que era um dos sete escolhidos para o serviço das mesas, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo (At 6.8). Filipe, também do grupo dos sete, realizou curas e expulsou espíritos imundos em Samaria (At 8.6-7). Ananias, descrito apenas como discípulo, foi o instrumento da cura da cegueira de Saulo (At 9.10-18). Ágabo profetizou em Antioquia e depois em Cesareia (At 11.28; 21.10-11), e as quatro filhas de Filipe profetizavam (At 21.9).
Em segundo lugar, quando houve o derramamento do Espírito, estavam presentes cerca de cento e vinte pessoas (At 1.15), ao passo que o grupo apostólico era de doze. Lucas informa que todas essas pessoas foram cheias do Espírito Santo (At 2.4). Ora, se não apenas os apóstolos receberam o Espírito como poder para o serviço e para a edificação pessoal, com sinais externos, por que motivo a morte do último apóstolo cessaria dons que nunca foram exclusividade apostólica? Qual a lógica disso?
Pedro, citando Joel, pregou dizendo: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne” (At 2.17a). A promessa não é dirigida a um grupo restrito, mas a “toda a carne”, e a continuação do texto explicita a amplitude do alcance: filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas.
4.2 O argumento da revelação especial
Alguns cessacionistas defendem que os dons desapareceram gradualmente ao longo da história da igreja, tese que a documentação histórica disponível sobre os carismas nos primeiros séculos não confirma[3]. Parte da argumentação afirma que, quando Deus concede uma nova revelação especial, emprega métodos extraordinários, como a profecia e as línguas, a fim de entregar essa revelação, e sinais extraordinários, como os milagres, para confirmar aqueles que devemos receber, profetas e apóstolos, como portadores inspirados dessa revelação. Robert Rothwell resume a posição nos seguintes termos:
Quando Deus transmite nova revelação especial, ele emprega métodos extraordinários, tais como a profecia e as línguas, para entregar essa revelação, e sinais extraordinários, tais como os milagres, para confirmar aqueles que devemos receber — profetas e apóstolos — como seus portadores inspirados dessa revelação. Consequentemente, quando Deus não está concedendo nova revelação especial, ele não usa métodos e sinais extraordinários; antes, opera em e por meio da exposição de sua revelação especial (a Escritura), mediante mestres capacitados e presbíteros devidamente escolhidos. (Rothwell, 2020, tradução nossa)
É perceptível que esse argumento não é textual. Qual passagem da Escritura está sendo usada? Nenhuma. Trata-se de um argumento lógico que parte de um pressuposto cessacionista e chega à conclusão de que a Bíblia substitui os dons, ainda que a Bíblia não afirme isso em parte alguma. Argumenta-se que a ausência de profetas em determinados períodos da história, como o intervalo entre o Antigo e o Novo Testamento, indicaria que os milagres estão condicionados a uma revelação especial de Deus; e que, tendo nós agora a revelação final, nada mais seria necessário além de pregar a Escritura — ainda que a Escritura ensine a atualidade dos dons, o que coloca a tese em notória incoerência.
O argumento é falacioso também por outra razão: a ausência do registro de milagres em determinado período histórico não significa necessariamente ausência de milagres. Ora, se deixarmos de registrar a história por escrito, por áudio ou por vídeo, isso significa que ela não terá existido de fato? Argumentos construídos sobre o silêncio das fontes suportam, no máximo, conclusões provisórias, jamais uma doutrina.
Além disso, Deus nunca condicionou os milagres a uma nova etapa de sua revelação aos homens. Ao contrário, ao relacionar o derramamento do Espírito ao aspecto escatológico dos “últimos dias”, Pedro compreendeu esse período como aquele que se estende desde a sua pregação até o fim dos tempos.
4.3 “Nos últimos dias”: a moldura escatológica de Atos 2
O ponto é decisivo e merece ser acompanhado de perto. Quando Pedro explica os eventos de Atos 2, apela a Joel 2.28-32, profecia que descreve a obra de revestimento de poder do Espírito, com profecia, sonhos e visões. Douglas Oss observa a alteração introduzida na citação:
A frase introdutória dessa profecia, “e, depois disso” (Jl 2.28), é alterada no sermão de Pedro para “nos últimos dias” (At 2.17), enfatizando assim a obra característica de poder pelo Espírito durante os “últimos dias”. A conclusão do sermão de Pedro (2.38,39), portanto, deve ser entendida à luz desse contexto, e não por meio de um contexto paulino importado. (Oss, 1996, p. 277, tradução nossa)
A modificação não é estilística. Ao substituir a fórmula temporal genérica de Joel pela expressão técnica “nos últimos dias”, Pedro situa o derramamento do Espírito dentro da era escatológica inaugurada pela ressurreição e pela exaltação de Cristo, era que se estende até a parusia. O dom do Espírito, com tudo o que o acompanha, é apresentado como característica dessa era, e não como fenômeno transitório dentro dela. A promessa é explicitamente estendida aos que estão longe, “a quantos Deus nosso Senhor chamar” (At 2.39).
Se estamos na última hora, e no último minuto dos “últimos dias”, como cessariam os dons do Espírito? Sabem mais os teólogos cessacionistas do que Pedro e do que Lucas, autores da frase e do livro, respectivamente?
5 Considerações Finais
O problema enunciado na introdução era saber se os argumentos correntes em favor da cessação dos dons resistem ao exame das passagens que os sustentam. A análise realizada permite responder que não resistem, e por razões de natureza distinta em cada caso.
No que se refere a 1Coríntios 13.8-13, verificou-se que a identificação de “o que é perfeito” com o cânon concluído não se sustenta no encadeamento do capítulo, uma vez que os versículos 11 e 12 descrevem uma transformação do sujeito que conhece, e não a substituição de um meio de revelação por outro; que a mesma sentença que anuncia o fim das línguas e das profecias anuncia igualmente o fim da ciência, o que obrigaria os defensores dessa leitura a admitir consequências que eles próprios recusam; e que os intérpretes de maior peso da tradição não pentecostal, Barclay e Calvino, leem a passagem em chave escatológica, tal como o faz o exegeta pentecostal Gordon Fee. Vemos, assim, que mesmo entre os cessacionistas essa interpretação não é endossada por todos, nem pelos melhores dos seus teólogos. Da mesma forma, nós, pentecostais e carismáticos, temos interpretações ortodoxas e coerentes deste texto, ficando demonstrada aqui a total ineficácia daquele argumento.
No que se refere ao argumento da era apostólica, verificou-se que ele contraria o relato de Atos, no qual os carismas aparecem distribuídos muito além do colégio apostólico, e que sua versão mais elaborada, a que vincula os sinais extraordinários à concessão de nova revelação especial, não se apoia em texto algum da Escritura, além de depender de um argumento a partir do silêncio das fontes. A moldura de Atos 2.16-21, por sua vez, situa o derramamento do Espírito no interior de toda a era que antecede a consumação.
Cabe declarar os limites do estudo. A análise concentrou-se em duas passagens e em seis autores, o que deixa de fora textos regularmente invocados no debate, como Efésios 2.20, 2Coríntios 12.12 e Hebreus 2.3-4, cujo exame poderia matizar ou reforçar as conclusões aqui alcançadas. O artigo tampouco realizou levantamento histórico próprio sobre a presença dos carismas nos primeiros séculos, apoiando-se, nesse ponto, em afirmação de caráter geral. Também não foram discutidos os abusos praticados em ambientes carismáticos, que constituem objeção recorrente e legítima, ainda que de natureza pastoral, e não exegética.
Desses limites decorre uma agenda. Seria proveitoso, em investigação futura, examinar o conjunto dos textos cessacionistas clássicos com o mesmo procedimento aqui adotado, isto é, confrontando a leitura corrente com a literatura produzida pela própria tradição que a sustenta; e realizar um levantamento documentado da presença dos carismas na literatura cristã dos três primeiros séculos, capaz de submeter a prova a tese do desaparecimento gradual.
O movimento pentecostal tem afirmado, desde o seu surgimento, que a manifestação do poder do Espírito Santo nos “últimos dias” permanece como realidade contínua da Igreja. Convictos, proclamamos a natureza carismática permanente da Igreja revestida pelo poder do Espírito.
Referências
BARCLAY, William. Comentario al Nuevo Testamento: Corintios. v. 9. Tradução de Alberto Araujo. Barcelona: Editorial CLIE, 1997.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
CALVINO, João. Comentário à Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios [1546]. Tradução do latim para o inglês de John Pringle. Grand Rapids: Christian Classics Ethereal Library. Disponível em: https://ccel.org/c/calvin/comment3/comm_vol39/htm/TOC.htm. Acesso em: 17 set. 2026.
DEERE, Jack. Surprised by the Power of the Spirit. Grand Rapids: Zondervan, 1993.
FEE, Gordon D. 1 Coríntios: comentários exegéticos. São Paulo: Vida Nova, 2019.
KYDD, Ronald A. N. Charismatic Gifts in the Early Church. Peabody: Hendrickson, 1984.
OSS, Douglas A. A Pentecostal/Charismatic View. In: GRUDEM, Wayne A. (org.). Are Miraculous Gifts for Today? Four Views. Grand Rapids: Zondervan, 1996. p. 239-283.
ROTHWELL, Robert. Cessationism. Tabletalk. Sanford: Ligonier Ministries, abr. 2020. Disponível em: https://tabletalkmagazine.com/article/2020/04/cessationism/. Acesso em: 17 set. 2026.
Notas explicativas
[1] Entende-se por proselitismo a ação ou o empenho de converter uma ou várias pessoas em prol de determinada causa, doutrina, ideologia ou religião.
[2] A edição consultada é a tradução inglesa de John Pringle, disponibilizada em formato digital pela Christian Classics Ethereal Library, que não apresenta paginação fixa. Por essa razão, a citação é localizada pelo trecho comentado, conforme faculta a NBR 10520:2023.
[3] Para um levantamento da documentação sobre a manifestação dos carismas nos primeiros séculos, ver Kydd (1984).

